Turmalina 18-50 - Almirante Negro da Revolta da Chibata faz Brasil rever seu racismo na peça - Por Miguel Arcanjo

Turmalina 18-50

ORIGINALMENTE PUBLICADO EM: BLOG DO ARCANJO – MAIO DE 2021

https://www.blogdoarcanjo.com/2021/05/13/critica-almirante-negro-da-revolta-da-chibata-faz-brasil-rever-seu-racismo-na-peca-turmalina-18-50/

“Glórias a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais”. Os versos emblemáticos da canção O Mestre-Sala dos Mares, de Aldir Blanc e João Bosco, eternizada na voz da maior intérprete, Elis Regina, serve como luva à missão do espetáculo Turmalina 18-50, realização da Cia. Cerne, de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro.

O foco da montagem teatral, assim como da canção-pérola da MBP, é contar para as novas gerações a história de João Cândido Felisberto (1880-1969), o Almirante Negro líder da Revolta da Chibata em 1910 e que durante as quatro décadas finais de sua vida viveu em São João de Meriti, onde morreu pobre, rechaçado pela Marinha e esquecido, apesar de seu feito heroico e histórico em prol do povo brasileiro.

Apesar de a Abolição da Escravatura ter sido decretada no Brasil em 1888, nos 22 anos seguintes o açoite continuou a ser prática de castigo nos corpos dos marinheiros negros, numa ultrajante herança escravocrata imperial em tempos de República. Foi apenas diante da Revolta da Chibata, comandada por João Cândido, com a ousadia de apontar canhões de navios de guerra para a cidade do Rio de Janeiro, que a Marinha precisou voltar atrás em tal prática desumana e covarde. Mas, o Almirante Negro, alcunha que ganhou na época pelos jornais da então capital da República, sofreu até o fim da vida por aquele ato de coragem, tendo sido expulso das Forças Armadas e jamais sendo reintegrado à Marinha do Brasil, em uma prova da maldade do racismo estrutural e institucional que se justificou como desrespeito à hierarquia, mesmo que esta fosse profundamente racista.

Todos estes dados históricos são necessários para se falar do espetáculo Turmalina 18-50, que contou com minuciosa pesquisa história de Luiz Antônio Simas, que forneceu dados e documentos que embasam o texto de Vinicius Baião, que consegue habilmente unir informações sem perder a poesia necessária do teatro. A obra ainda conta com supervisão de Rodrigo França, nome que vem fazendo nos últimos anos o orgulho negro prevalecer no teatro carioca e fluminense, em um movimento histórico de conquista do palco para artistas pretos.

Repleta de símbolos e costuras com questões que se repetem no contemporâneo, em uma eloquente realização do teatro épico proposto por Bertolt Brecht (1898-1956) pelo diretor Vinicius Baião — e sem descuidar da qualidade das atuações, o que é raro —, a obra navega nas águas turvas da vida do Almirante Negro, tendo como porto de partida o endereço em que ele viveu em São João de Meriti e dá nome ao espetáculo: rua Turmalina, Lote 18, quadra 50, evidenciando que por lá, as questões vividas por Cândido permanecem as mesmas.

Em um país desmemoriado como o Brasil, que apaga seus ícones mais importantes, sejam sociais ou culturais, um espetáculo como esse deve ser celebrado, valorizado e, sobretudo, visto. Afinal, João Cândido teve luta crucial em prol da igualdade racial que traz dignidade ao negro e, portanto, a toda a sociedade brasileira.

Foi com luta e enfrentamento que ele conquistou o fim de uma prática execrável no corpo de nossas Forças Armadas, que, por sua vez, deveriam lhe agradecer por isso, em vez de condená-lo ao banimento eterno, como se fosse um pária em vez de herói. A Marinha do Brasil deve a João Cândido e seus companheiros na Revolta da Chibata sua retirada da Idade das Trevas e tentativa de desembarque na civilização republicana e democrática ocidental.

Entretanto, toda essa história não seria possível de ser contada de forma tão tocante se não tivesse à sua disposição um elenco coeso, feito não só de talento como de entrega verossímil à cada palavra dita ou imagem construída por este espetáculo. E aí é preciso ressaltar o trabalho de união demonstrado pelos atores em cena em torno de contar da melhor forma possível essa velha, mas infelizmente tão atual, história.

Com sua voz aveludada e postura elevada em cena, Átila Bee dá vida ao protagonista João Cândido, a quem defende com unhas e dentes, provocando no público imediata identificação. Graciana Valladares, outro destaque no palco, por sua vez, navega por personagens distintas, emprestando sagacidade na construção de cada uma delas com sua devida nuance. Madson Vilela, que completa o trio negro da peça, é intenso em suas composições, percorrendo variados personagens com grande entrega.

Rechaçando a divisão étnica e sendo sua própria escalação um exemplo de igualdade racial, completam o sexteto do elenco os atores Gabriela Estolano, Higor Nery e Leandro Fazolla, todos navegando com desenvoltura pelos personagens que ajudam no avanço da trama ou dão suporte generoso ao protagonismo negro necessário à biografia de João Cândido, em um exemplo de postura consciente e tão necessária no teatro brasileiro, para que novas matizes e significados se construam aos olhos do público. Nesta história, o ponto de vista é o negro, mas também o de todas ditas minorias pisadas pelo velho sinhozinho que teima em se repetir no poder, seja na Marinha, na TV, no teatro ou na sociedade como um todo.

A obra conta com cenografia dinâmica e manipulada pelos atores para criar significados, criada por Cachalote Mattos, em um exemplo cenográfico simples e funcional à estética épica adotada pela encenação. Os figurinos de Carol Barros colocam os atores e atrizes vestidos de elegantes marinheiros do começo do século 20, o que é um verdadeiro respiro de beleza em meio à crueza dos fatos apresentados.

Há que se evidenciar a presença cênica integrada e consciente dos corpos em cena, o que mostra que o preparador corporal Orlando Caldeira executou, e muito bem, o trabalho para o qual foi convidado pela Cia. Cerne. Kadú Monteiro, por sua vez, abusa da brasilidade e da sonoridade afro-brasileira na direção musical e de trilha executada ao vivo, fazendo da força ancestral da vibração sonora parte da experiência estética que atinge cada átomo dos espectadores. A produção ainda conta com a lente atenta da fotografia de Stephany Lopez e o cuidadoso registro audiovisual da Guapoz Produções Artísticas.

Como uma ponte histórica potente entre as águas da Guanabara que viram o surgimento do dragão insurgente do mar e os dias de hoje, ainda tão bravios para o povo negro, Turmalina 18-50 vem para não deixar a história se esquecer de João Cândido. E reconduz sua figura à Marinha por direito, afinal, por mais que a Censura da ditadura militar tenha trocado a letra da música de Blanc e Bosco, o bravo feiticeiro na verdade era um bravo marinheiro, e o tal do navegante negro, de fato foi e é o grande Almirante Negro da Marinha do Brasil.

Isto posto, só nos resta colocar Elis Regina na vitrola e cantar junto a plenos pulmões: “Glórias a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais. Salve, o Almirante Negro que tem por monumento as pedras pisadas no cais. Mas faz muito tempo…”

Turmalina 18-50, da Cia Cerne

✪✪✪✪✪ Ótimo


Turmalina 18-50 - Nadar contra a maré: A vida de João Cândido Felisberto - Por Gaba Cerqueda

Turmalina 18-50

NADAR CONTRA A MARÉ: A VIDA DE JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO

Originalmente publicado em:
Teatro da Baixada

“(…) montando as águas da voz convocando os fantasmas.”
Um Rio Preso nas Mãos (Ana Paula Tavares)

“De repente, o longo gemido da sirene de um navio entrou
pela janela aberta e inundou o quarto em penumbra —
o grito de uma dor sem limites, sombria, exigente; escuro
como breu e glabro como o dorso de uma baleia,
sobrecarregado de todas as paixões das marés,
da memória de viagens fora de conta, de alegrias
e humilhações; o mar estava gritando.”
O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar (Yukio Mishima)

As águas são a epifania da Natureza, nos diz Manoel de Barros.

TURMALINA 18-50 é um espetáculo realizado pela CIA CERNE, companhia sediada na Baixada Fluminense. Com texto e direção de Vinicius Baião, a peça conta com seis atores no elenco: Diogo Nunes, Gabriela Estolano, Madson Vilela, Higor Nery, Graciana Valladares e Leandro Fazolla. O espetáculo nos leva até a história de João Cândido Felisberto e recebe como nome o último endereço que o mesmo habitou: Rua Turmalina Lote 18, Quadra 50, em São João de Meriti. O Almirante Negro, como era conhecido, desbravou mares para lutar pelos direitos dos marinheiros e foi o principal responsável pela Revolta da Chibata, em 1910, um movimento de insubordinação militar que visava acabar com os castigos físicos e as condições desumanas na Marinha Brasileira.

Filho de pais ex-escravizados, João Cândido se tornou um símbolo de resistência e coragem, lutando contra práticas cruéis e injustas em um contexto de extrema desigualdade racial e social.

Entendendo que estamos inseridos dentro de uma sociedade que privilegia as perspectivas das elites e dos grupos dominantes, o espetáculo nos apresenta a história que surge através dos olhos marejados do próprio João Cândido e de seus companheiros, trazendo um contexto heróico e histórico, desafiando a versão adulterada da história brasileira e sublinhando experiências que foram ignoradas ou distorcidas e nos colocando frente a frente com as lacunas cavadas pela colonização.

O espetáculo inicia com uma respiração coletiva, uma ocupação sonora feita pelos 6 atores em cena. Criando uma atmosfera lúdica, os atores emendam em uma reza, que por sua vez, é emendada em brincadeiras infantis que logo nos revelam o espaço-tempo onde a cena se passa (estamos em um tempo não muito distante da abolição da escravatura). João é comparado com um “animal selvagem que precisa ser domado”, e separado de sua família ainda muito jovem.

Começa então sua amizade instável com o mar, e viramos testemunhas das “águas revoltas do seu peito” e de uma vida de maresia, que termina em um mercado de peixes na Baixada Fluminense, sem direito a moradia em terra.

No início do espetáculo ja é estabelecido as trocas de personagens, ou o coringamento dos atores (mais especificamente do personagem e João Cândido, que transita por Diogo Nunes e Madson Vilela). A encenação não deixa que as trocas comprometam a dramaturgia, pelo contrário, a escolha de não manter personagens fixos fortalece o jogo de cena durante a apresentação. Os 4 atores (Gabriela Estolano, Higor Nery, Graciana Valladares e Leandro Fazolla) estão sempre alternando de personagens para compor a cena e os diferentes cenários e situações, se transformam em mães, filhas, amigos, inimigos, e figuras que navegam em cena atentas e confortáveis para jogar uns com os outros no palco, como ondas que desembocam na praia e contadores de história versáteis e ágeis.

O desenho de luz e a interação de cores traçam um diálogo poético com o espaço, texto, corpo e sons, como se fosse a própria luz um personagem ativo criando imagens diante de nossos olhos: como uma fresta de luz que entra tímida no porão de um navio, ou um raio de sol que nasce no horizonte pela manhã.

O cenário feito por Cachalote Mattos, opera em constante estado de transformação. A estrutura de ferro vira navio, prisão, trem, palco, varal de roupa, casa, cidade, poste de luz. É empurrada. É habitada. É navegada. Gira e se movimenta feito água.

A água também é personagem autônomo dentro da dramaturgia e vira lágrima no rosto de João, onda no meio do mar, exílio, solidão que sonha com um pedaço de terra e esbarra no corpo de mãe e filha queimadas com fogo, pensando na liberdade do vento que chega na proa e nos sussurra: “seria toda revolução uma aurora?”

Um novo começo?
Uma nova chance?
Uma esperança do tamanho de um orvalho?
ou uma gota no oceano capaz de gerar tsunamis?

Por fim, a estrutura vira uma espécie de instalação-escultura em homenagem a João Cândido Felisberto. Um altar que guarda uma âncora transformada em coroa de flores.
Vemos a passagem do tempo diante dos nossos olhos, e com ela as injustiças de um Brasil que ainda opera como moinho e máquina de triturar ossos. Com registros históricos e documentais, a peça cruza a vida de João Cândido com acontecimentos recentes, nos lembrando que as violências e rastros deixados pela escravidão não estão longe de nós, mas presentes todos os dias. Ao mencionar o caso ocorrido em um dos Supermercados Ricoy, em 2019, onde um adolescente negro foi torturado, a peça nos leva de volta às 250 chibatadas dadas por punição.

Usando o dispositivo de desmontagem cênica, o ator Diogo Nunes compartilha com o público a sua experiência no mundo enquanto um homem preto, gay e morador do Complexo do Alemão.

“Seria toda revolução uma aurora?”.

Não só vivemos em um país onde discursos foram deliberadamente apagados ou distorcidos, mas que nos relembra todos os dias do perigo do esquecimento e da importância do resgate histórico.

Apesar disso, uma coroa de flores. uma celebração da vida, muito mais do que a morte, e a poesia inserida nas feridas do mundo como forma de insistir na vida.

Deixar que o mar carregue as palavras que passam de boca em boca e não afogam nunca o legado fundamental de JOÃO CÂNDIDO FELISBERTO, como rio que corre e não dá ré.
Além do lembrete – “encruzilhada não é labirinto” – sublinho uma outra frase dita durante o espetáculo: “liberdade se conquista organizadamente”.

Penso nos grãos de areia minúsculos, que juntos formam grandes faixas na praia e me pergunto: o que as areias e as águas nos contam sobre um lugar?

Eu daqui, sentada em um quarto na Zona Oeste, tento escrever esse texto usando palavras enquanto penso em minha avó analfabeta e me junto, através das teclas do computador, ao coro dos atores ao fim do espetáculo, que celebram a vida do Almirante Negro anunciando glórias:

Glórias ao povo de santo, professores, artistas, trabalhadores das periferias, comunidade lgbtqiapn+, mães e mulheres pretas, Marielle, direitos humanos e ao mar. Eu daqui: dou glórias a todos que nadam contra a maré e que acreditam nas águas que curam, mas que também são armas de guerra capazes de destruir mundos, inundar cidades, afogar línguas, soterrar morros e confabular ruínas.


Turmalina 18-50 - Camadas biográficas entre idas e vindas temporais - Por Viviane da Soledade

Turmalina 18-50

Camadas biográficas entre idas e vindas temporais – Turmalina 18-50

Originalmente publicado em: Questão de Crítica – Dezembro de 2022

https://www.questaodecritica.com.br/2022/08/turmalina-18-50/

Turmalina 18-50 é, inicialmente, sobre João Cândido Felisberto, Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata ocorrida em 1910. A obra conta em detalhes toda a trajetória de dor e de lutas contra o racismo por parte de Felisberto – nome que lhe foi negado pela Marinha do Brasil à época. Trazer à cena a história desse herói negro, morador de São João de Meriti, mesmo território da Cia Cerne, autora do trabalho, sugere uma duplicidade biográfica no que tange à vida e aos feitos do personagem principal, mas também à identidade que atravessa esse coletivo de artistas. A Cia Cerne integra a Rede Baixada em Cena, organização cultural criada em 2008 na Baixada Fluminense para fortalecer a consciência política e participativa de artistas e produtores da região. A Cia Cerne também é um dos 22 coletivos integrantes da Rede de Grupos de Pesquisa Continuada em Teatro da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a Frente Teatro, que tem como valor expandir territórios e fomentar compartilhamentos entre artistas de todas as regiões do Rio de Janeiro.
O espetáculo é uma convocação à memória de João Cândido, filho de ex-escravizados que teve importante trajetória política em defesa das pessoas negras. A Revolta da Chibata foi um dos marcos de seu engajamento político, que buscou garantir os direitos da população negra na Marinha, quando esta ainda praticava torturas como forma de disciplinar marinheiros e inibir suas mobilizações políticas – em um momento em que sua grande maioria era composta por corpos negros –, ainda que a chibatada não fosse mais permitida por lei. Já naquela época, a referida prática deflagrava os resíduos da escravização dos corpos negros como biopolítica, que ainda persistem nos dias de hoje. A juventude que mais morre por intervenção policial em territórios vulneráveis da cidade do Rio de Janeiro é a negra. Então, encenar um espetáculo inspirado na biografia de João Cândido é dar um rosto aos movimentos sociais liderados por pessoas negras que são de extrema importância para a garantia de seus direitos sociais. Mas é também dar o devido reconhecimento às histórias de lutas em que o protagonismo é negro e que, quase sempre, são invisibilizadas pela História.

Turmalina 18-50 faz parte do repertório da Cia Cerne, fundada em 2013 na cidade de São João de Meriti, Baixada Fluminense, com dramaturgia e direção de Vinicius Baião, supervisão de Rodrigo França, pesquisa de Luiz Antônio Simas e um elenco predominante negro composto por Átila Bee, Madson Vilela, Graciana Valladares, Higor Nery, Gabriela Estolano e Leandro Fazolla. As operações cênicas realizadas pela Cia Cerne nos remetem imediatamente ao passado, mas com o compromisso sociopolítico de nos fazer refletir o presente. O cenário de Cachalote Mattos, a trilha sonora de Kadu Monteiro (que também realiza a direção musical e preparação vocal) e, sobretudo, a dramaturgia de Baião fazem o espectador se conscientizar de como aqueles mesmos resíduos da escravidão ainda persistem na atualidade e de como servem à estrutura capitalista da desigualdade, como promovem a manutenção do racismo estrutural, que jamais foi devidamente desarticulado.

O cenário articulável, com módulos giratórios capazes de assumirem inúmeros formatos em cena, é quase como uma alegoria do necessário desmonte dessa estrutura racista rígida cuja manutenção interessa ao sistema capitalista, pois não existe capitalismo sem escravização dos corpos subalternos. A cenografia propicia inúmeras formas para contar a história do Almirante Negro, ora situando a cena em um navio, ora remetendo à prisão, por exemplo. É a partir dessa leitura que me proponho a analisar esse espetáculo, observando a sua proposição de alternar a localização da cena entre uma e outra referência espacial. Acredito que esse entrelugar é o que faz desse espetáculo algo tão atual. As referências ao mar trazem à tona a memória colonial consolidada na travessia dos navios negreiros que transportaram inúmeros corpos negros para a escravização no Brasil. Por outro lado, o mar também simboliza a liberdade dos corpos negros pós-abolição. No entanto, não podemos jamais esquecer que o Brasil foi o país que mais colonizou corpos negros e o último a abolir a escravidão.

A cena da prisão de João Cândido e outros marinheiros por conta das mobilizações sociais não nos permite esquecer a tradição de práticas genocidas contra a população negra. Essa mesma cena me remete aos vagões dos navios negreiros lotados das populações africanas em condições precárias – quando muitos morreram antes mesmo de chegarem ao Brasil –, e às prisões atuais no país, igualmente lotadas, resultando no encarceramento em massa que concentra corpos negros (que constituem a maior parte da população carcerária no país) em cubículos até a morte. São acontecimentos históricos que se repetem, tomando outros formatos entre o passado e o presente, materializado pelo uso dinâmico do cenário na direção de Vinícius Baião. O genocídio dos corpos negros perpetua até os dias de hoje com a comprovação das estatísticas de morte da população negra, muitas das vezes associado à intervenção do poder público. O espetáculo nos faz transitar entre a liberdade e a prisão, entre o passado e o presente, “entre a denúncia e a anunciação”.

O Almirante Negro, como era chamado, sofreu retaliações políticas e foi expulso da Marinha de Guerra do Brasil sem nunca ter sido devidamente reconhecido pelas conquistas decorrentes das lutas políticas que travou. Faleceu empobrecido em 1969 como morador da rua Turmalina em São João de Meriti, mesma localidade da Cia Cerne, autora do trabalho. A noção territorial é tão cara ao espetáculo que está contemplada em seu título, uma vez que Turmalina 18-50 é o endereço em que o personagem principal residiu, e que é próximo à casa do ator Átila Bee. O esforço de memória promovido por esse espetáculo é sobre a biografia de Felisberto, como gostava de ser chamado, mas também, sobre São João de Meriti e a Cia Cerne. O espetáculo fala também sobre os artistas em cena, o que está evidente no depoimento de Átila Bee sobre a violência contra seu corpo negro e homossexual, ocorrida na rua Turmalina, ao mesmo tempo moradia do personagem histórico e lugar real da precariedade causada pela negligência de políticas públicas. Essa articulação dramatúrgica se repete ao final do espetáculo quando todos os atores e atrizes mencionam ao público suas identificações às lutas sociais por melhores condições de vida.

Há nesse trabalho um propósito específico do grupo, de encenar sua identidade territorial e social. Trata-se de um trabalho importante por toda a sua pesquisa cênica, mas ainda mais relevante por sua perspectiva ética, por todas as suas dimensões de conscientização social, como a discussão sobre o direito à cidade, implícita na existência desse coletivo. Movimentos artísticos como esse têm sido fundamentais para a fomentação da produção teatral de lugares periféricos do Estado, da visibilidade de coletivos da Baixada e outras regiões do Rio de Janeiro, muitas vezes alijados das políticas públicas, inclusive cultural. Movimentos como esse têm fortalecido coletivos artísticos por meio da organização coletiva, da criação de estratégias de circulação no Estado e do engajamento de públicos e intercâmbios, além de propiciar o deslocamento pela cidade. A Cia Cerne esteve com o espetáculo no Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, localizado na zona sul do Rio de Janeiro, e, recentemente, no Sesc Tijuca, região norte da mesma cidade. Logo, falar da sua localidade tem também uma intencionalidade política que é o de circular por diferentes localidades.

O apagamento histórico de João Cândido Felisberto é também uma metáfora do apagamento que a cena teatral da Baixada Fluminense sofreu ao longo de anos devido à desigualdade social – que é também territorial. O apagamento histórico sofrido pelo personagem principal também é uma analogia ao apagamento da produção cultural periférica da cidade do Rio de Janeiro que tem dificuldades de estar no jornal, por exemplo. Coletivos como a Cia Cerne têm sido responsáveis por alterar os eixos dessa capital tão excludente, inclusive para seus artistas.


Turmalina 18-50 - Não há topo no mar — A jornada abissal de João Cândido - Por Julio Angelo

Turmalina 18-50

Não há topo no mar — A jornada abissal de João Cândido

Originalmente publicado em: Medium – Março – 2022

https://medium.com/@juliooangelo/n%C3%A3o-h%C3%A1-topo-no-mar-a-jornada-abissal-de-jo%C3%A3o-c%C3%A2ndido-5bef85fad504

Ecolocalização crítica inspirada no espetáculo teatral “Turmalina 18–50”, realizado pela Cia. Cerne, com dramaturgia e direção de Vinícius Baião. Em 2022, o espetáculo estreou no dia 15 de abril na Casa de Cultura Laura Alvim (RJ).

O espetáculo “Turmalina 18–50”, com texto e direção de Vinicius Baião, é fruto de pesquisa da Cia. Cerne, grupo oriundo do estado do Rio de Janeiro, mais precisamente da cidade de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. É a rua com o nome da pedra preta conhecida por afastar más energias (Turmalina, lote 18 e quadra 50) que estabelece o elo entre a enseada da companhia e o último assentamento do corpo-embarcação João Cândido, o lendário e historicamente vilipendiado marinheiro que liderou a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910 nas águas da Baía de Guanabara.

Uma vez que este vínculo singular é mapeado, a encenação visa apresentar uma possível reelaboração dele — optando por um proceder que transita pelas instâncias de uma teatralidade afrorreferenciada e pelo encadeamento simultâneo de um vastíssimo repertório documental baseado na complexa e múltipla vida do Almirante Negro. O elenco, em especial, Átila Bee e Madson Vilela, atores que se dividem na performance da personagem do marinheiro, se apoiam, justamente, nos ombros continentais de João Cândido para farolar suas águas rasas — absorvidas como o apanhado de arquivos e dados oficiais — e nos permitir a vislumbrar coletivamente os seus abismos junto à possibilidade de especular aquilo que falta em toda a história preta.

Os ombros de João compuseram a carapaça de um encouraçado predestinado ao combate contra as agruras físicas e simbólicas da violência antinegra e a recusa de se pôr à deriva no esquecimento promovido pelas instituições brasileiras. Essa paisagem metafórica, também evidencia um grande fardo — medido pela racialidade — sobre a vida-morte de João Cândido. Portanto, podemos nos questionar: como dissolver os nós que persistem em limitar (sendo torcidos ao ponto de estrangular) as memórias de nossos ancestrais? O que liquida a escassez de uma imaginação condicionada à miséria?

A água dissolve tudo. A água é anticolonial, mas é antes, ainda, e será: água.

Na perspectiva de tais desafios (sem solução no mundo aparente), é possível reconhecer a água como o signo fundante da teatralidade mencionada anteriormente. Esse elemento compõe a forja de um ecossistema cênico complexo e abundante, tendo a ambição de confluir-se, por sua vez, às águas que envolvem a biografia do homenageado em questão.
Do banzo transatlântico existente na travessia da Kalunga Grande às águas ordinárias do velho pescador João — sua última ocupação em vida, o mar sempre se quebrou em suas costas.

O fim silencioso dos castigos físicos aos marinheiros de tez negra, após os fatídicos desdobramentos da Revolta da Chibata, também configurou a traição da marinha aos oficiais rebeldes, conduzindo-os à prisão na Ilha das Cobras (RJ), feita arquipélago negreiro. Na peça, o único buraco existente naquele cubículo-cova é tangido por um filete de luz angustiante, que vem a remeter a linha ilusória que separa a barbárie e a Razão no Ocidente. Dessa forma, o diagnóstico de loucura imposto a João Cândido e a sua desvairada revelia ao status quo, o fez prisioneiro dos episódios que o levaram até a sua morte física e o proclamou (anti)herói de seu próprio destino na história moderna do Brasil.
Enquanto ainda há muita disputa sobre a biografia de João Cândido Felisberto — sobrenome que também desdobra o quebra cabeça das dramaturgias do espetáculo, escolho estancar essa escrita com o presságio de que em breve findará a tempestade que envolve sua memória. Só assim será possível nos molhar na plena formação de um leito para seu almejado descanso e transmutação.

O mar é o melhor amigo das existências escuras.


Turmalina 18-50 - Por Nil Mendonça

Turmalina 18-50

Originalmente publicado em: Rede Baixada Em Cena – Movimento Baixada Crítica – Escritas Afetivas – Abril de 2021

https://redebaixadaemcena.medium.com/turmalina-18-50-aaeec175b4a9

Turmalina é uma pedra usada por antigos para anular energias negativas. E coincidentemente é o nome da rua em que João Cândido passou seus últimos dias. Você deve ter estudado sobre ele, por ter sido um dos líderes da Revolta da Chibata. Se perdeu essa aula, temos mais um motivo para assistir ao espetáculo Turmalina 18–50, da Cia Cerne.
“Espetáculo de Vinícius Baião com a Cia Cerne. Rua Turmalina, lote 18, quadra 50. Rua sem asfalto localizada em São João de Meriti, Baixada Fluminense, RJ. Em 1969, neste endereço, vivia um senhor negro de 89 anos. Incógnito, os vizinhos não desconfiavam que aquele João era considerado por muitos um herói nacional por ter liderado a Revolta da Chibata, que acabou com os maus tratos aos negros na Marinha. No cinquentenário de sua morte (2019), a Cia Cerne, também de Meriti, montou o espetáculo em que o Almirante Negro é apresentado para além do mito criado em torno de sua figura pública”.

A primeira percepção nítida que temos ao assistir ao espetáculo é a construção vocal do elenco em conjunto com a reconstrução constante do espaço com os sons. A escolha em manter as vozes, os corpos e o espaço como percussão e paisagem sonora no início, criando um crescente até o uso dos instrumentos, me leva pelo espetáculo com leveza. Sinto-me convidada a estar naquela história que não propõe apresentar algo, mas me convidar a vivenciar algo, Turmalina é um espetáculo que me faz ficar atenta a cada segundo, sem haver a possibilidade de deixar passar qualquer coisa pelos meus olhos.

Essa vivência é fruto de uma direção sóbria e afetuosa, que entende qual é o lugar de cada um dos artistas que significam o espetáculo em um ótimo exemplo do papel do branco na luta antirracista. Isso, com certeza, é o resultado do cuidado com as escolhas e a consultoria sólida da supervisão de Rodrigo França e o respeito com a história de um herói negro e com os artistas negros envolvidos. Vinicius Baião constrói uma narrativa textual e cênica incrivelmente fluida, com imagens que complementam os discursos dissolvidos em uma contação da vida e trajetória drásticas de João Cândido. Os bustos e heróis históricos brancos foram barões e princesas, os revolucionários e heróis negros foram assassinados ou morreram em desgraça.

Entender esse fato da construção da imagem do negro na sociedade é muito importante para identificar o que houve de errado na sociedade e como isso deve ser transformado ainda hoje. A peça, em diversas vezes, traz acontecimentos atuais evidenciando a necessidade da luta de João Cândido, desde uma cantiga de rodas que revela traços de uma sociedade construída a partir da escravidão, até o relato do incrível ator Átila Bee em cena. Para mim, esta peça é a maior transformação que a Cia Cerne entrega para a sociedade, de forma que há artistas brancos construindo narrativas negras direcionando o protagonismo para a história e os corpos negros que compõem a cena. É notório que os próprios artistas tinham propriedade ao construir a obra. Sem dúvidas, isso é mais uma vitória para a luta antirracista.

Cachalote Mattos está sempre com um cenário versátil e impecável, com uma estrutura que remete ao público fielmente a proposta. O mesmo posso dizer da preparação corporal de Orlando Caldeira, contribuindo para um elenco preparado e incrivelmente organizado em seus papéis. Leandro Fazolla, Higor Nery e Gabriela Estolano exercem muito bem seu ofício, como apoios à construção dessa história, sem, em nenhum momento, brigarem com os atores negros por protagonismo e sendo notados justamente pela humildade e carinho na construção da cena.

E chegamos aos destaques deste escrito. Não tenho pudor nenhum em dizer que Graciana Valladares é, sem dúvida nenhuma, uma das maiores atrizes da nossa geração, assim como a alternância no papel de João Cândido entre Átila Bee e Madson Vilela é um acerto absurdo que eleva e muito a trajetória da peça. A entrega dos dois a essa narrativa é o que me faz perceber o quanto o povo preto têm que continuar a abraçar suas narrativas no palco. É nítido que para eles essa peça não é só mais um trabalho. Estar em um lugar fazendo uma história completamente diferente da sua é uma das graças de ser ator, mas interpretar um herói com histórias que te atravessam todos os dias numa estação de trem tem uma potência inenarrável, e o trabalho do ator é potencializado em conjunto com a construção de cena.

Espero que um dia entendam a importância artística, social e histórica que essa peça carrega. Por que digo com propriedade que essa é uma obra que muda a história do teatro brasileiro consagrando artistas e guiando várias gerações no lugar entre a arte e a responsabilidade social que ela carrega desde a composição até a apresentação.


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