Turmalina 18-50 – Por Nil Mendonça

Originalmente publicado em: Rede Baixada Em Cena – Movimento Baixada Crítica – Escritas Afetivas – Abril de 2021

https://redebaixadaemcena.medium.com/turmalina-18-50-aaeec175b4a9

Turmalina é uma pedra usada por antigos para anular energias negativas. E coincidentemente é o nome da rua em que João Cândido passou seus últimos dias. Você deve ter estudado sobre ele, por ter sido um dos líderes da Revolta da Chibata. Se perdeu essa aula, temos mais um motivo para assistir ao espetáculo Turmalina 18–50, da Cia Cerne.
“Espetáculo de Vinícius Baião com a Cia Cerne. Rua Turmalina, lote 18, quadra 50. Rua sem asfalto localizada em São João de Meriti, Baixada Fluminense, RJ. Em 1969, neste endereço, vivia um senhor negro de 89 anos. Incógnito, os vizinhos não desconfiavam que aquele João era considerado por muitos um herói nacional por ter liderado a Revolta da Chibata, que acabou com os maus tratos aos negros na Marinha. No cinquentenário de sua morte (2019), a Cia Cerne, também de Meriti, montou o espetáculo em que o Almirante Negro é apresentado para além do mito criado em torno de sua figura pública”.

A primeira percepção nítida que temos ao assistir ao espetáculo é a construção vocal do elenco em conjunto com a reconstrução constante do espaço com os sons. A escolha em manter as vozes, os corpos e o espaço como percussão e paisagem sonora no início, criando um crescente até o uso dos instrumentos, me leva pelo espetáculo com leveza. Sinto-me convidada a estar naquela história que não propõe apresentar algo, mas me convidar a vivenciar algo, Turmalina é um espetáculo que me faz ficar atenta a cada segundo, sem haver a possibilidade de deixar passar qualquer coisa pelos meus olhos.

Essa vivência é fruto de uma direção sóbria e afetuosa, que entende qual é o lugar de cada um dos artistas que significam o espetáculo em um ótimo exemplo do papel do branco na luta antirracista. Isso, com certeza, é o resultado do cuidado com as escolhas e a consultoria sólida da supervisão de Rodrigo França e o respeito com a história de um herói negro e com os artistas negros envolvidos. Vinicius Baião constrói uma narrativa textual e cênica incrivelmente fluida, com imagens que complementam os discursos dissolvidos em uma contação da vida e trajetória drásticas de João Cândido. Os bustos e heróis históricos brancos foram barões e princesas, os revolucionários e heróis negros foram assassinados ou morreram em desgraça.

Entender esse fato da construção da imagem do negro na sociedade é muito importante para identificar o que houve de errado na sociedade e como isso deve ser transformado ainda hoje. A peça, em diversas vezes, traz acontecimentos atuais evidenciando a necessidade da luta de João Cândido, desde uma cantiga de rodas que revela traços de uma sociedade construída a partir da escravidão, até o relato do incrível ator Átila Bee em cena. Para mim, esta peça é a maior transformação que a Cia Cerne entrega para a sociedade, de forma que há artistas brancos construindo narrativas negras direcionando o protagonismo para a história e os corpos negros que compõem a cena. É notório que os próprios artistas tinham propriedade ao construir a obra. Sem dúvidas, isso é mais uma vitória para a luta antirracista.

Cachalote Mattos está sempre com um cenário versátil e impecável, com uma estrutura que remete ao público fielmente a proposta. O mesmo posso dizer da preparação corporal de Orlando Caldeira, contribuindo para um elenco preparado e incrivelmente organizado em seus papéis. Leandro Fazolla, Higor Nery e Gabriela Estolano exercem muito bem seu ofício, como apoios à construção dessa história, sem, em nenhum momento, brigarem com os atores negros por protagonismo e sendo notados justamente pela humildade e carinho na construção da cena.

E chegamos aos destaques deste escrito. Não tenho pudor nenhum em dizer que Graciana Valladares é, sem dúvida nenhuma, uma das maiores atrizes da nossa geração, assim como a alternância no papel de João Cândido entre Átila Bee e Madson Vilela é um acerto absurdo que eleva e muito a trajetória da peça. A entrega dos dois a essa narrativa é o que me faz perceber o quanto o povo preto têm que continuar a abraçar suas narrativas no palco. É nítido que para eles essa peça não é só mais um trabalho. Estar em um lugar fazendo uma história completamente diferente da sua é uma das graças de ser ator, mas interpretar um herói com histórias que te atravessam todos os dias numa estação de trem tem uma potência inenarrável, e o trabalho do ator é potencializado em conjunto com a construção de cena.

Espero que um dia entendam a importância artística, social e histórica que essa peça carrega. Por que digo com propriedade que essa é uma obra que muda a história do teatro brasileiro consagrando artistas e guiando várias gerações no lugar entre a arte e a responsabilidade social que ela carrega desde a composição até a apresentação.

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