Turmalina 18-50 – Não há topo no mar — A jornada abissal de João Cândido – Por Julio Angelo

Não há topo no mar — A jornada abissal de João Cândido
Originalmente publicado em: Medium – Março – 2022
Ecolocalização crítica inspirada no espetáculo teatral “Turmalina 18–50”, realizado pela Cia. Cerne, com dramaturgia e direção de Vinícius Baião. Em 2022, o espetáculo estreou no dia 15 de abril na Casa de Cultura Laura Alvim (RJ).
O espetáculo “Turmalina 18–50”, com texto e direção de Vinicius Baião, é fruto de pesquisa da Cia. Cerne, grupo oriundo do estado do Rio de Janeiro, mais precisamente da cidade de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. É a rua com o nome da pedra preta conhecida por afastar más energias (Turmalina, lote 18 e quadra 50) que estabelece o elo entre a enseada da companhia e o último assentamento do corpo-embarcação João Cândido, o lendário e historicamente vilipendiado marinheiro que liderou a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910 nas águas da Baía de Guanabara.
Uma vez que este vínculo singular é mapeado, a encenação visa apresentar uma possível reelaboração dele — optando por um proceder que transita pelas instâncias de uma teatralidade afrorreferenciada e pelo encadeamento simultâneo de um vastíssimo repertório documental baseado na complexa e múltipla vida do Almirante Negro. O elenco, em especial, Átila Bee e Madson Vilela, atores que se dividem na performance da personagem do marinheiro, se apoiam, justamente, nos ombros continentais de João Cândido para farolar suas águas rasas — absorvidas como o apanhado de arquivos e dados oficiais — e nos permitir a vislumbrar coletivamente os seus abismos junto à possibilidade de especular aquilo que falta em toda a história preta.
Os ombros de João compuseram a carapaça de um encouraçado predestinado ao combate contra as agruras físicas e simbólicas da violência antinegra e a recusa de se pôr à deriva no esquecimento promovido pelas instituições brasileiras. Essa paisagem metafórica, também evidencia um grande fardo — medido pela racialidade — sobre a vida-morte de João Cândido. Portanto, podemos nos questionar: como dissolver os nós que persistem em limitar (sendo torcidos ao ponto de estrangular) as memórias de nossos ancestrais? O que liquida a escassez de uma imaginação condicionada à miséria?
A água dissolve tudo. A água é anticolonial, mas é antes, ainda, e será: água.
Na perspectiva de tais desafios (sem solução no mundo aparente), é possível reconhecer a água como o signo fundante da teatralidade mencionada anteriormente. Esse elemento compõe a forja de um ecossistema cênico complexo e abundante, tendo a ambição de confluir-se, por sua vez, às águas que envolvem a biografia do homenageado em questão.
Do banzo transatlântico existente na travessia da Kalunga Grande às águas ordinárias do velho pescador João — sua última ocupação em vida, o mar sempre se quebrou em suas costas.
O fim silencioso dos castigos físicos aos marinheiros de tez negra, após os fatídicos desdobramentos da Revolta da Chibata, também configurou a traição da marinha aos oficiais rebeldes, conduzindo-os à prisão na Ilha das Cobras (RJ), feita arquipélago negreiro. Na peça, o único buraco existente naquele cubículo-cova é tangido por um filete de luz angustiante, que vem a remeter a linha ilusória que separa a barbárie e a Razão no Ocidente. Dessa forma, o diagnóstico de loucura imposto a João Cândido e a sua desvairada revelia ao status quo, o fez prisioneiro dos episódios que o levaram até a sua morte física e o proclamou (anti)herói de seu próprio destino na história moderna do Brasil.
Enquanto ainda há muita disputa sobre a biografia de João Cândido Felisberto — sobrenome que também desdobra o quebra cabeça das dramaturgias do espetáculo, escolho estancar essa escrita com o presságio de que em breve findará a tempestade que envolve sua memória. Só assim será possível nos molhar na plena formação de um leito para seu almejado descanso e transmutação.
O mar é o melhor amigo das existências escuras.