Mães de UTI - Por Adriana Dehoul

Mães de UTI

Originalmente publicado em: Woo Magazine
https://woomagazine.com.br/critica-maes-de-uti/

Baseado em histórias e relatos reais é que nasce o espetáculo “Mães de UTI”. Terceiro espetáculo da Cia Cerne, que é sediada em São João de Meriti e é integrante da Rede Baixada em Cena, e que mais uma vez surpreende pela delicadeza com que tratam de uma questão tão séria e ao mesmo tempo pela força que existe nas denúncias feitas ali na nossa cara.

Depois de receber inúmeros prêmios pelo espetáculo “Ainda Aqui”, que retrata a história de uma família obrigada a conviver com dores e sacrifícios, reconstruindo afetos dia a dia logo após a tortura e morte do filho Maurício em tempos de ditadura militar, a companhia se lança mais uma vez sobre uma temática tão profunda quanto a anterior, mas mantém ainda um viés de denúncia através da arte.

A linguagem do espetáculo é teatro documental e se utiliza gravações, entrevistas, fotos e fatos reais de uma mãezinha de UTI, mas com uma roupagem cênica. A linguagem não te permite engendrar por caminhos ficcionais. A verdade esta ali exposta, nua e crua para que nos aproximemos dessa realidade, que as vezes nos parece tão distante da nossa, mas as vezes está bem mais perto do que imaginamos.

Vemos em cena atores, dando voz à cada um daqueles personagens da vida real. Apenas dois estão fisicamente em cena, mas uma infinidade de pessoas perpassam por essa história.

Com uma dramaturgia muito bem estruturada e escrita por Vinicius Baião, que também assina a direção do espetáculo, temos, através dos trechos desses relatos, a sensação de estar ali, ao lado daquelas mulheres em sofrimento e expectativa e também daquela criança em uma incubadora buscando ser mais forte que todos. Lutando pela vida. A realidade é dura até mesmo no sentido da legislação que não permite que o pai da criança também seja liberado para acompanhar mais de perto o bebê após o nascimento. A licença paternidade é infinitamente inferior em comparação à maternidade e o espetáculo esfrega na nossa cara o quão duro e infeliz é isso para as mães, para os pais e principalmente para a criança que necessita da presença e afeto de ambos em todos os momentos. Alguns finais mais felizes, outros menos, levam o espectador a, de certa forma, se reconectar com a efemeridade de se estar vivo.

Os tempos do espetáculo nos conduzem à sensação de espera à que os pais e familiares ficam expostos, desconfortavelmente, a todo instante, sendo “perturbados” de tempos em tempos por trabalhadores da saúde que só lhes jogam informações médicas e saem. Não há empatia, na grande maioria das vezes. O que se esperar então de um plano de saúde onde se paga caro para receber um atendimento qualquer. Desamparo é a sensação que transborda para a plateia. Estamos sozinhos!

Conforme informado pelo coletivo, “Mães de UTI” é resultado de pesquisas feitas pelo grupo sobre prematuridade extrema (bebês nascidos antes dos 6 meses de gestação). O espetáculo aborda, na fronteira entre ficção e realidade, as dores, angústias e alegrias por que passam milhares de mulheres que, diariamente, vivem a experiência de fazer da UTI neonatal o seu lar, enquanto acompanham o desenvolvimento de seus filhos.

O elenco é formado por Leandro Fazolla, Higor Nery e Gabriela Estolano, atriz que protagoniza o espetáculo, vivendo, simultaneamente, a história de Fabiane Simão, umas das mães entrevistadas, e a si própria, quando tem a oportunidade de tecer comentários críticos sobre a realidade vivida por quem necessita das UTI`s neonatais brasileiras. Destaca-se a preparação corporal realizada por Marcio Vasconcellos e a vocal realizada por Umile Romano, que permitiu uma excelente performance física e vocal dos atores.
A cenografia, assinada pelo também ator do espetáculo, Leandro Fazolla é bastante simbólica e possibilita inúmeras mudanças cênicas inteligentes e bastante criativas. A iluminação assinada por Arthur Souza trabalha junto e em favor da cena potencializando cada instante.

Vale super a pena dar uma conferida na peça que segue em cartaz no Teatro Café Pequeno até dia 27 de Agosto sempre as 20 horas.


Mães de UTI - Por Renato Mello

Mães de UTI

Originalmente publicado em: Botequim Cultural

Até o dia 27 de agosto o Teatro Café Pequeno apresenta em temporada o espetáculo “Mães de UTI”, com direção de Vinicius Baião.

“Mães de UTI” é o 3º espetáculo do repertório da Cia Cerne e apresenta em suas linhas gerais algumas características que fazem parte de uma assinatura que já é perceptível no seu périplo artístico, como os anteriores “Ainda Aqui” e “Joio”, como a presença de um conteúdo autoral, o inconformismo e uma proposição para uma reflexão aos temas que abarca. O diferencial desta vez é a opção por caminhos que desaguam no teatro documental na forma como constrói sua dramaturgia, baseando-se em depoimentos recolhidos pelo diretor Vinicius Baião, que realiza um trabalho de costura para dar uma condução narrativa ao formato final da proposta.

Como expressa sua sinopse oficial, “a partir de relatos reais colhidos através de entrevistas com mães de prematuros extremos, aborda, na fronteira entre a ficção e realidade, as dores, angústias e alegrias por que passam milhares de mulheres que, diariamente, vivem a experiência de fazer da UTI neonatal o seu lar, enquanto acompanham o desenvolvimento de seus filhos”.

Nesse processo de construção de um olhar mais profundado na pesquisa, contou-se com a supervisão de Alexandre Lino, ator, diretor e produtor, que tem um histórico importante dentro do teatro documental como forma de expressão artística.

Um dos aspectos mais importantes do trabalho de Baião é a forma como a partir desses relatos, consegue colocar uma lupa dentro da sua abordagem, criando a partir de um mundo real um percurso para o espectador se inserir num mundo muito particular, com “regras” específicas de convivência, de coabitação, de protocolos, como que criando uma dimensão e um universo com suas especificidades, aonde a dor é pungente em todo o seu decorrer. É dentro desse universo que seus personagens vivem como se nada além dele importasse, ou mesmo existisse do lado de fora, apenas um desejo intenso e inesgotável de deixa-lo pela porta principal, com seu bebê no colo para traçar toda uma história de vida em comum. A direção de Vinicius Baião, com poucos elementos cenográficos, basicamente o movimentar de 2 divisórias, uma incubadora e uma poltrona, consegue criar diferentes quadros dentro de uma mesma contextualização , expondo de maneira contundente a dimensão da dor de seus personagens, atingindo uma amplidão cênica para sua proposta e mantendo um fluxo narrativo linear.

Gabriela Estolano, que representa situações e sentimentos vividos pelas diferentes mães de UTI, em dados momentos, repentinamente quebra a sequência dramática para expor uma percepção externa à própria condução. Abre dessa forma um interessante leque de observação. Leandro Fazolla e Higor Nery, dois atores com um histórico de contribuição no processo criativo de Vinicius Baião, realizam um trabalho a 4 mãos, integrando a construção narrativa dentro de diferentes possibilidades, atingindo um grau de dificuldade elevado ao externar uma dicotomia entre a frieza indiferente e o calento amoroso, dependendo da forma como a dramaturgia de Baião apropria-se de suas capacidades interpretativas.

Vinicius Baião é um diretor que não faz concessões, vai até o fundo de suas propostas. Em “Mães de UTI” mais além de atingir zonas emocionais, traz reflexões humanistas sobre aspectos de vidas que, se temporariamente estão “aparte” do nosso mundo cotidiano, aprofundam o dimensionamento do mais puro amor que um ser humano por sentir.


Privacy Preference Center