Joio - Por Renato Mello

Joio

Originalmente publicado em: Botequim Cultural

A Mostra de Cenas Autorais e Independentes ocorrida no corrente mês de junho no Teatro Dulcina me trouxe a oportunidade de conhecer mais um trabalho da Cia Teatral Cerne, o espetáculo “Joio”, encenado durante o evento juntamente com outra peça do seu repertório, “Ainda Aqui, cuja proposta já conhecia anteriormente.

Foi-me então possível extrair com um pouco mais de profundidade as camadas reflexivas propostas pela Cia Teatral Cerne, não somente como uma fotografia única, mas agora já com uma linha de pensamento coerente que abarca uma proposta teatral honesta em seus propósitos, com conteúdo autoral, inconformista e de valor artístico.

Como define sua própria sinopse oficial, “Joio” é ‘inspirado em uma história real, o espetáculo narra a história de Jéssica, adolescente que tem sua vida transformada a partir do agravamento da dependência química de sua mãe e pelo estupro que sofre pelos traficantes com quem sua mãe se relaciona. A partir de então, Jéssica se divide entre proteger suas irmãs ou proteger a si mesma*

Se eu puder definir o espetáculo “Joio” em pouquíssimas palavras, afirmo que é um soco na boca do estômago. Não necessariamente por abordar um tema incômodo e pesado, mas pela maneira como ele é tratado em cena e por suas escolhas narrativas e cênicas.

Definindo agora “Joio” segundo o dicionário, trata-se do que pode prejudicar ou corromper aqueles que o cercam. De algum modo se estabelece a partir dai algumas premissas básicas que se expõe em cena, por uma necessidade irremediável de se separar o “joio do trigo”, desatar os insípidos nos com quem deveria resolutamente oferecer a proteção incondicional ao invés de mergulhar ao grotão abissal da violência, do abandono e da desesperança. O texto de Vinicius Balão evolui gradativamente numa espiral de angústia contaminando toda a ambientação, não possibilitando nenhuma zona de conforto ao espectador, tirando-o da sua passividade voyeurística e incapacitando-lhe à indiferença.

Essa base dramatúrgica robustece a encenação, possibilitando a Vinicius Baião abrir mão de subterfúgios e assim escavar as camadas do texto, concentrando-se assim nos aspectos nevrálgicos de sua história. A concepção erigida por um fundo negro, constrói-se por uma cenografia (assinada por Leandro Fazolla) composta por 3 escadas utilizadas das mais diversas formas e concedendo diversas possibilidades cênicas para a ambientação e para as exigências narrativas. Essa estruturação das cenas capacita para a transposição ao palco toda a amplitude da inquietação e contundência da dramaturgia.

A Cia Teatral Cerne tem no autor/diretor Vinicius Baião sua figura de proa, um artista com uma profunda visão critica, que contempla em seu trabalho uma fonte de importante reflexão politico-social sobre o mundo que está diante dos nossos olhos. Assim foi com Ainda Aqui, cuja critica pode ser lida AQUI, um espetáculo. Essa base dramatúrgica robustece a encenação, possibilitando a Vinicius Baião abrir mão de subterfúgios e assim escavar as camadas do texto, concentrando-se assim nos aspectos nevrálgicos de sua história. A concepção erigida por um fundo negro, constrói-se por uma cenografia (assinada por Leandro Fazolla) composta por 3 escadas utilizadas das mais diversas formas e concedendo diversas possibilidades cênicas para a ambientação e para as exigências narrativas. Essa estruturação das cenas capacita para a transposição ao palco toda a amplitude da inquietação e contundência da dramaturgia.

Gabriela Estolano, Maira Zago, Vinicius Andrade, Higor Nery e Leandro Fazolla compõe um elenco que demonstra plena capacidade de externar na altura adequada da crueldade exposta ao mesmo tempo que mantém um canal emocional para dimensionarmos a tragédia interior dos personagens. Gabriela Estolano ganha o foco principal e realiza uma atuação de muito bom nível técnico, não somente pelo correto extravasamento da dor de sua infância roubada, mas principalmente pela exploração da técnica corporal para encontrar verdade numa faixa etária diferente da sua. Maira Zago apresenta-se com boa expressividade, explorando um personagem que se torna uma alma penada no inferno do seu mundo cão, exercendo com precisão sua ambiguidade de vitima e algoz. Vinicius Andrade, Higor Nery e Leandro Fazolla realizam igualmente um bom exercício corporal (méritos para a preparação de Marcio Paulo Vasconcellos), vivenciando distintos personagens, o que lhes exige por circunstâncias diversas a utilização de uma apurada técnica interpretativa. Já era sabedor dessas virtudes em Higor Nery e Leandro Fazolla, porém o equacionamento na graduação e a alta qualidade conjunta das interpretações comprova o acerto da direção de atores conduzida por Vinicius Baião.

O figurino de Vinicius Andrade apresenta-se de acordo com as necessidades cênicas, enquanto a iluminação de Arthur Souza soube valorizar com exatidão os momentos dramatúrgicos.

A temática do estupro ganhou “por circunstâncias” a ordem do dia, mas a contundência de um espetáculo como “Joio” mostra que “por circunstâncias” não é o caminho correto de uma sociedade se construir como civilização. Definitivamente e repetindo-me, “Joio” é um soco no estômago! Um soco urgente e necessário.


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